Psicologia e Tecnologia: impactos na subjetividade
CARTILHA · USO EDUCACIONAL

Psicologia e Tecnologia: impacto na subjetividade

Uma cartilha interativa para estudantes de Psicologia sobre redes sociais, dependência tecnológica e os desafios éticos trazidos pela Inteligência Artificial — com base em resoluções do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e outras fontes técnicas.

↓ role para começar · 8 módulos

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Módulo 1

Subjetividade em tempos digitais

Em Psicologia, subjetividade é o modo singular como cada pessoa constrói sua experiência de si e do mundo — memórias, desejos, vínculos, o próprio senso de identidade. Essa construção nunca acontece no vácuo: sempre é mediada por cultura, linguagem e, cada vez mais, por tecnologia.

Hoje, boa parte de como nos vemos e somos vistos passa por telas: perfis, curtidas, métricas de engajamento, recomendações automáticas. A tecnologia deixou de ser só uma ferramenta e passou a fazer parte do próprio processo de constituição do sujeito.

Entender essa mediação importa porque sintomas contemporâneos — ansiedade de comparação, medo de ficar de fora, exaustão por hiperconectividade — muitas vezes só fazem sentido quando se leva em conta o ambiente digital em que a pessoa está inserida. Ignorar essa camada é perder parte do quadro clínico.
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Módulo 2

Redes sociais e comportamento

Redes sociais são desenhadas para maximizar tempo de tela: rolagem infinita, notificações, curadoria algorítmica do que aparece primeiro. Esse desenho molda comportamento — inclusive o quanto uma pessoa se compara com outras e o quanto sua sensação de pertencimento passa a depender de validação online.

Uma tese de pós-graduação da Faculdade de Medicina da UFMG (2023), ao revisar estudos sobre tempo de tela e saúde mental, identificou que a maior parte das pesquisas com crianças e adolescentes associou uso excessivo de telas a aumento de sintomas depressivos, sobretudo entre meninas expostas a conteúdo sobre padrões de corpo.

Faculdade de Medicina da UFMG, 2023

Um levantamento norte-americano de 2023 sobre redes sociais e saúde mental de jovens também apontou que adolescentes que passam mais de três horas por dia nessas plataformas têm risco consideravelmente maior de sintomas de ansiedade e depressão, em comparação a quem usa menos.

Relatório "Social Media and Youth Mental Health", EUA, 2023

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Módulo 3

Dependência tecnológica

O uso constante de redes sociais e dispositivos ativa regiões cerebrais ligadas ao sistema de recompensa — o mesmo circuito envolvido em outras formas de dependência. Isso ajuda a explicar por que é tão difícil simplesmente "usar menos".

The Conversation Brasil / Fundação Conrado Wessel

Desde 2022, a Classificação Internacional de Doenças da OMS (CID-11) inclui o transtorno do jogo eletrônico dentro do capítulo de transtornos decorrentes de comportamentos aditivos — reconhecendo formalmente que o uso compulsivo de jogos e, por extensão, da internet pode configurar um quadro clínico, e não apenas um hábito.

Organização Mundial da Saúde (OMS), CID-11, em vigor desde jan/2022

Em linhas gerais, a OMS descreve o transtorno por padrões como: perda de controle sobre o tempo de uso, priorização do uso digital em detrimento de outras áreas da vida, e continuidade do comportamento mesmo diante de prejuízos claros — critérios que precisam se manter por tempo prolongado para justificar um diagnóstico, não bastando o uso intenso pontual.
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Módulo 4 · Foco em ética

IA e Psicologia: os novos desafios éticos

Em julho de 2025, o CFP divulgou uma Nota de Posicionamento sobre Inteligência Artificial na prática psicológica. O documento reforça um ponto central: IA pode ser ferramenta de apoio, mas não substitui o julgamento clínico humano — seu uso deve sempre ocorrer sob supervisão humana e em conformidade com o Código de Ética Profissional.

Nota de Posicionamento do CFP sobre IA e Psicologia, jul/2025

Meses depois, diante do anúncio do programa "e-Saúde Mental no SUS" — que prevê uma plataforma de IA para apoiar diagnóstico e tratamento na atenção primária —, o CFP publicou nova nota alertando que mudanças dessa natureza exigem cautela técnica, segurança jurídica e construção coletiva com profissionais, gestores e usuários, reafirmando que a atuação da psicóloga é essencial e insubstituível mesmo com o avanço da IA.

Nota CFP nº 5/2025/STEC/GTEC/CG-CFP, set/2025

Isso levanta dilemas concretos para a prática: uma IA pode ajudar a organizar anotações de sessão — mas e se ela responder diretamente ao paciente? Pode sugerir leituras — mas e se o paciente não souber que está conversando com um sistema automatizado, e não com a profissional? A confidencialidade dos dados sensíveis armazenados por essas ferramentas também exige atenção redobrada, já que envolve informação protegida por sigilo profissional.

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Módulo 5

Marco ético-legal da profissão

Estas são as principais normas do CFP que orientam o uso de tecnologia na prática psicológica hoje:

Código de Ética Profissional do PsicólogoCFP, 2005
Estabelece os princípios fundamentais da profissão — sigilo, respeito à dignidade humana, compromisso com a ciência — que continuam valendo, e ganham novas nuances, diante do uso de qualquer tecnologia digital.
Regulamenta o atendimento por TDICsRes. CFP nº 09/2024
Regulamenta o exercício profissional mediado por Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDICs), substituindo as resoluções anteriores de 2018 e 2020. Descontinuou a exigência do cadastro e-Psi, mantendo a responsabilidade da psicóloga por avaliar a viabilidade do atendimento remoto.
Diretrizes para a psicoterapiaRes. CFP nº 13/2022
Define deveres para o exercício da psicoterapia, presencial ou mediada por tecnologia, incluindo a exigência de contrato claro com a pessoa atendida.
Uso de instrumentos e testesRes. CFP nº 31/2022
Regula o uso de instrumentos e testes psicológicos, inclusive quando aplicados remotamente — exigindo parecer favorável do SATEPSI para a versão utilizada.
Uso profissional de redes sociaisNota Técnica CFP nº 1/2022
Orienta sobre publicidade profissional e cuidados éticos no uso de redes sociais pela psicóloga, incluindo os limites entre divulgação de trabalho e promessas inadequadas.
IA e PsicologiaNota de Posicionamento CFP, 2025
Trata especificamente dos riscos e limites do uso de Inteligência Artificial na prática psicológica, exigindo supervisão humana e alinhamento ao Código de Ética.
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Módulo 6 · Simulador

Simulador de dilema ético

Cenário: você atende adolescentes e está avaliando usar um chatbot de IA como apoio entre as sessões. Ajuste os dois controles e veja como a combinação se posiciona diante do que o CFP estabelece.

CENÁRIO: uso de IA como apoio clínico entre sessões
AJUSTANDO
Mova os controles para ver a avaliação ética da combinação.
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Módulo 7

Autoavaliação

Seis perguntas para fixar os principais conceitos e normas vistos até aqui.

1. O que a Psicologia entende por "subjetividade"?

Subjetividade é um processo de construção de sentido, não um diagnóstico.

2. Na CID-11 da OMS, o uso problemático de jogos eletrônicos está classificado em qual capítulo?

A classificação reconhece o padrão compulsivo como um quadro clínico próprio.

3. A Resolução CFP nº 09/2024 trata de quê?

Ela substituiu as resoluções de 2018 e 2020 sobre atendimento por tecnologia.

4. Segundo a Nota de Posicionamento do CFP sobre IA (2025), o uso de IA na prática psicológica deve:

O CFP trata a IA como apoio, nunca como substituta do julgamento clínico.

5. A Nota Técnica CFP nº 1/2022 orienta especificamente sobre:

Ela trata dos limites éticos da divulgação profissional em redes sociais.

6. Ao usar uma IA que armazena dados sensíveis de pacientes, a maior preocupação ética envolvida é:

Sigilo é princípio central do Código de Ética, e dados sensíveis exigem cuidado redobrado.
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Módulo 8

Para continuar pensando — e fontes

Ética no uso de tecnologia não é uma checklist marcada uma vez: é uma pergunta a se refazer a cada novo recurso — o que ele foi feito para maximizar, quem supervisiona, e quem responde quando algo dá errado.

  • Você saberia identificar, na sua própria rotina, um uso compulsivo de tecnologia?
  • Se uma paciente sua usasse um chatbot de IA como "terapia", como você abordaria isso na sessão?
  • Que informação sobre uso de IA você julga que todo paciente tem direito de saber?

Fontes citadas

  • CFP
    Nota de Posicionamento sobre Inteligência Artificial e Psicologia (jul/2025) — site.cfp.org.br
  • CFP
    Nota nº 5/2025/STEC/GTEC/CG-CFP sobre e-Saúde Mental no SUS (set/2025) — site.cfp.org.br
  • CFP
    Resolução CFP nº 09/2024 (exercício mediado por TDICs) — atosoficiais.com.br
  • CFP
    Resolução CFP nº 13/2022 (diretrizes para a psicoterapia)
  • CFP
    Resolução CFP nº 31/2022 (instrumentos e testes psicológicos)
  • CFP
    Nota Técnica CFP nº 1/2022 (uso profissional de redes sociais)
  • OMS
    CID-11 — capítulo de transtornos decorrentes de comportamentos aditivos, em vigor desde jan/2022
  • UFMG
    Faculdade de Medicina — pesquisa sobre tempo de tela e saúde mental (2023) — medicina.ufmg.br
  • The Conversation Brasil
    Hiperconectados: a fronteira entre uso excessivo e dependência digital — theconversation.com